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Música · Ensaio

A MPB que estamos esquecendo de fazer

Ensaio sobre o que aconteceu com a canção brasileira contemporânea entre 2020 e 2026

A música popular brasileira não morreu, mas ficou difícil de encontrar. Onde antes havia disco assinado por compositor reconhecido, hoje há catálogo infinito de single sem autor visível. Este ensaio mapeia o que sobrou.

por Alvaro//9 min de leitura
Capa do ensaio "A MPB que estamos esquecendo de fazer"
9 min de leitura·

Toda geração musical brasileira, desde os anos 1960, teve seu disco-síntese. Caetano e Gil em 1968, Milton Nascimento em 1972, Belchior em 1976, Marisa Monte em 1991, Chico Science em 1994, Adriana Calcanhotto em 2002, Criolo em 2011.

Pergunte agora qual é o disco-síntese da década de 2020 até este momento. Você vai pensar três minutos antes de responder. E provavelmente, ao final desses três minutos, você vai responder com um nome de single, não de disco.

Isso não é falha de memória. É sintoma estrutural.

O que mudou

A indústria fonográfica brasileira foi reformatada ao redor da lógica do streaming pago — que privilegia, em ordem de importância: playlist editorial, single, capa quadrada de Spotify e algoritmo. O disco como objeto narrativo, com começo, meio e fim, deixou de ser unidade de produção. Virou marketing.

O que sobrou

Apesar disso, há artistas brasileiros tentando fazer disco em 2026.

Letrux continua produzindo discos conceituais que se sustentam como narrativa. Letrux Aos Prantos (2019) é, em retrospecto, um dos discos mais importantes do início da década.

Tim Bernardes segue construindo obra, devagar, com clareza. Mil Coisas Invisíveis (2022), seu segundo disco solo, é referência da década até aqui — quarenta e cinco minutos de canção que pedem escuta integral.

Há outros que merecem ser acompanhados — Maria Beraldo com seu trabalho de violoncelo e canção, Marcelo Camelo em fase atual, Boogarins quando faz disco e não single, Russo Passapusso com a Orkestra Rumpilezz.

A cena regional

Nem só de eixo Rio-São Paulo se faz canção brasileira em 2026. Em Ponta Grossa e nos Campos Gerais, projetos como Hoovaranas (trio que cruza shoegaze, math rock e jazz fusion), Índigo (rock autoral), Jerimoon (com sua proposta singular de "bregacore" desde 2015) e MUM (Gabriela Cordeiro de Paula) sustentam, em escala regional, a mesma resistência ao formato single industrial.

O Festival de Música de Ponta Grossa e o Palco Novas Sonoridades, ativo desde 2016, dão palco recorrente a essa produção.

O que isso tem a ver com o leitor da Cápsula

A Cápsula Crítica vai cobrir música brasileira como obra, não como conteúdo. Vai resenhar discos inteiros. Vai escrever sobre artistas que fazem álbum, mesmo quando o álbum não está na primeira página de nenhuma plataforma.

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